Texto 1 - O PRIMEIRO AMOR É UMA TEMPESTADE
"Quem me dera nunca ter-te conhecido. Quem me dera, talvez. Quem me dera que os meus passos nunca tivessem tropeçado nos teus. A minha vida poderia ser outra se não tivesse tocado no profundo do teu olhar. Denso. Tempestuoso. Se eu tivesse me desviado a meio passo do teu olhar teria vivido na esperança de encontrar-te, sonhar-te e, talvez, nunca vir a desiludir-me. Estou ainda no começo, eu sei, eu sei que sim, eu sei, ainda estou no primeiro parágrafo da minha vida.
Enquanto caminho penso em tudo isto e persigo o primeiro sinal de sol. Poucas pessoas andam na rua e, mesmo estas, ainda estão com expressões de sonho na face. Enquanto caminho: os dias passados, as horas, os sorrisos, os olhares, a vida partilhada. Enquanto caminho penso em tudo isto e mastigo as promessas entre os dentes. Mastigo e lamento. Enquanto caminho penso em tudo isto, mastigo, lamento e sofro. Percebo que as pessoas passam por mim e não notam. Não notam o meu arrastar de alma. Enquanto caminho penso em tudo isto, mastigo, lamento, sofro e posiciono-me em modo de defesa. Quem me vê, não percebe. A quem me cumprimenta devolvo “bom dia” com um sorriso. O mundo não tem culpa do travo amargo dos meus passos. Um “bom dia” automático. Não aceito a culpa. Um “bom dia”.
Amanheci neste tom pálido e levo-o nas mãos. Levo-o comigo – o tom pálido e um coração em chamas. Como assim, o amor terminou? Como assim? Como assim? Como assim? Pode ser que o eco retorne alguma resposta. Pode ser que explique o que eu não entendo e o que tu não consegues traduzir: como assim? Andar permite-me discutir comigo própria porque não tenho mais forças para discutir contigo. Não posso mais argumentar. Andar permite-me adiantar-me à náusea de estar sem ti. Sei que somos jovens mas idealizávamos uma eternidade em cada instante.
Amanheci sem ter anoitecido e perdi a contagem das horas. Não sei bem se são dias, se são horas, se são minutos. A lembrança do teu olhar de tempestade; tão teu, tão meu. Mergulhavas em mim e eu naufragava no movimento do teu pestanejar. O teu abrir e fechar de olhos fazia mais sentido do que a rotação da Terra à volta do Sol. Foste o meu Galileu. Fizeste-me questionar todas as teorias sobre a vida, sobre o mundo, sobre mim.
Enquanto caminho penso em tudo isto. Ando para retomar o meu rumo. Um novo ponto de partida. Mastigo, lamento e sofro. Andar permite-me adiantar-me à náusea. Amanheci sem ter anoitecido e perdi a contagem das horas. Cheguei à conclusão de que há a possibilidade de criar uma nova teoria do universo. Foste o meu primeiro grande amor. Hei-de amar-te sempre. Conhecer-te foi o ponto de partida. Amanheci, finalmente.
A cada manhã, um novo começo."
Por Cátia Oliveira Gonçalves Pereira
Texto copiado integralmente

